Cosmogamias: Origem, Mitologia e a Bíblia

Cosmogamias: Origem, Mitologia e a Bíblia

Cosmogonia é um termo composto de duas palavras gregas cosmos, que significa mundo, e gonia, que traz a ideia de geração, nascimento.
A Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no verbete Cosmogonia traz a seguinte definição: “Teoria sobre a origem do universo geralmente fundada em lendas ou em mitos e ligada a uma metafísica.” Portanto, cosmogonia são narrativas mitológicas ou não que procuram explicar o surgimento do universo.

O pensamento mítico foi a primeira forma de interpretar a realidade. Mitologia vem de mytheyo que dentre outras coisas tem o sentido de “contar, narrar, falar alguma coisa para outros”. É uma narrativa não lógica com fim de explicar a origem das coisas tais como o universo, o homem, o fogo, o mal, etc.
O mito apela ao sobrenatural e constitui-se de elementos por vezes incoerente, fantasioso e eminentemente explicativo.
Na Grécia antiga os narradores dos mitos eram chamados de rapsodos ou poetas. Eram pessoas pretensamente escolhidas pelos deuses para trazer uma revelação narrada em forma poética na praça. Essa narrativa se esconde na coletividade da comunidade (não tem autor). O poeta era digno de confiança, pois possuía legitimidade religiosa.
O mito narra a origem das coisas por meio das cosmogonias (origem do universo) e teogonias (origem dos deuses). Geralmente a narrativa possuía uma finalidade explicativa mais abrangente. Por exemplo, para explicar o amor, nasceu o mito de Eros (cupido). A origem do fogo e dos males é explicada pelo mito de “Prometeu” e da “Caixa de Pandora”.
No Antigo Testamento não se encontram termos parecidos que definam o que era mito. Todavia, parece haver um consenso entre os estudiosos de que os textos do antigo Oriente Próximo que tratavam dos feitos miraculosos dos deuses foram rejeitados por Israel devido ao caráter politeísta e não-histórico dos seus relatos (BARBOSA, Aírton. FIDES REFORMATA, in GÊNESIS 1.1-2.3: UM TEXTO MÍTICO? Instituto Presbiteriano Mackenzie, 2004, p. 16).
Subentende-se que um mito é caracterizado pela presença de histórias não reais, com a presença de seres divinos (deuses) ou homens e outros seres sobrenaturais. Embora fossem conhecidos dos hebreus, estes mitos foram rejeitados por eles por causa da presença de um forte politeísmo, e por não se tratar de ‘história real’. Kaufmann descreve algumas características dos mitos cosmogônicos pagãos, tais como os do antigo Oriente Próximo:
“… um reino primordial que abriga as sementes de todo ser; uma teogonia que narra o nascimento dos deuses que são sexualmente diferenciados e procriam; a criação do cosmos a partir de matéria primordial – a mesma da qual emergiram os deuses, ou de alguma substância “divina”. (BARBOSA apud Kaufmann, A RELIGIÃO DE ISRAEL, p. 28).
Os mitos cosmogônicos estão presentes nas antigas religiões e também no começo do pensar filosófico. Por exemplo, as narrações de Homero, aponta Zeus como aquele que coloca ordem no mundo. Na filosofia, Tales de Mileto propôs uma explicação mais racional para a origem do universo e da vida. Para ele a água seria o elemento básico (arké) que deu origem a tudo, mais tarde eles adicionaram o logos, princípio organizador.
As primeiras cosmogonias estão preocupadas com a phisis, a origem do universo e da natureza. É assim que as cosmogonias egípcias e gregas apresentam os conceitos similares de um caos primordial e o surgimento dos deuses no meio deste caos e em oposição a ele. Estas cosmogonias lidam especificamente com a forma como os deuses criaram o mundo.
Os relatos cosmogônicos pagãos, todavia, refletem uma teologia rudimentar presente nas diversas religiões espalhadas pelo mundo.
Entretanto, é difícil identificar quem deu origem a quem, a cosmogonia à religião ou a religião à cosmogonia.

Cosmogonias antigas

Praticamente todos os povos antigos possuem um relato mítico sobre a criação do mundo. As cosmogonias mais conhecidas são aquelas pertencentes à região da mesopotâmia.
No livro “O Cérebro de Broca”, o cientista Carl Sagan, descreve a cosmogonia do povo Dogon, do interior da África Ocidental da seguinte maneira:
“A cosmogonia Dogon descreve como o Criador examinou um cesto entrançado, de boca redonda e base quadrada. Esses cestos ainda se usam hoje no Mali. O Criador voltou o cesto ao contrário e usou-o como modelo para a criação do mundo: a base quadrada representa o céu e a boca redonda o Sol.

Cosmogonia Suméria

O texto mais antigo a retratar uma cosmogonia é dos povos orientais chamados de Sumérios. Para os sumérios O mito do paraíso de Enki e Ninhursag apresenta uma série de deusas procriando à semelhança humana; utilizando-se do sêmen do deus Enki a vida vegetal é gerada em variadas formas.

Cosmogonia Egípcia

 

As crenças e lendas egípcias sobre a criação do mundo aparecem em diversos relatos textuais. Os três mitos mais influentes egípcios aparecem nas cidades de Heliópolis, Memphis, e Hermopolis.
Todos eles apresentam os conceitos similares de um oceano primordial, uma colina primordial, e a deificação de natureza. Estas três cosmogonias lidam especificamente com a forma como os deuses criaram o mundo. Em Heliópolis, nove deuses constituem as funções do Grande Ennead (os nove deuses). Atum funciona como o deus criador, de quem os outros oito deuses são originados. Atum gerou dois filhos, Shu (ar) e Tefnut (umidade). Posteriormente por meio de relações sexuais eles produziram Geb (terra) e Nut (céu).

 

 

Cosmogonia Babilônica

A cosmogonia babilônica é uma das mais conhecidas do mundo. A figura do Caos novamente é vista em oposição aos deuses. Uma grande batalha entre essas duas forças teria dado origem ao universo, em um conflito cósmico entre a Ordem e o Caos. A deusa Tiamate, que representava o oceano primitivo, batalha contra Marduque e é derrotada. Os céus e a terra são criados a partir da carcaça dividida de Tiamate. Com o sangue daqueles que conspiravam com ela, a humanidade é criada.

Cosmogonia hebraica

Para judeus e cristãos, as histórias da criação contidas no livro do Gênesis fazem parte de sua cosmogonia. O modelo hebraico fundamenta-se na existência de um Deus criador do Universo que criou a partir do nada os céus, a terra e todos os seres vivos em sete dias. O Deus hebraico não sai de um caos primordial, é sobrenatural e transcendente à sua criação, isto é, está além da natureza do universo material, não faz parte do mundo natural. Não foi criado.

Cosmogonias Grega e Africana

Em ambas, Deus é a própria Natureza, Ele é natural, e as forças da Natureza traduzem seus desejos. Não há uma origem do Universo, não aconteceu um momento de criação: o Universo sempre existiu, existe e existirá. Não tem início nem fim. Deus opera as próprias transformações da Natureza.

Semelhanças e diferenças nas cosmogonias

Podemos encontrar várias semelhanças entre as diversas cosmogonias do oriente antigo. Geralmente elas trabalham com alguns elementos que podem ser encontrados em quase todas as narrativas, inclusive a hebraica.
Água – o elemento primordial para a vida. Em uma região desértica é de se esperar que a figura deste elemento natural adquira aspectos mitológicos. Na mitologia egípcia, Num é o elemento aquático e inerte de que surge a terra. Na epopéia babilônica da criação, o monstro Tiamat o dragão do caos (= água original) foi superado por Marduc que fez do seu corpo o céu e a terra. Na cultura grega Tales, filósofo da natureza ensinava que tudo que é vivo saiu da água. Na cosmogonia hebraica a terra sai do meio da água.
Trevas – em uma época pré-industrial, onde a noite não havia sido vencida pela luminosidade da tecnologia e da ciência, as trevas eram símbolo do terror. Era o inimigo do homem primitivo. Tanto no Egito antigo como na mesopotâmia, incluindo o povo hebreu, as trevas representavam o caótico, o amorfo do estado anterior à criação. Na escuridão encontram-se as forças inimigas dos deuses e dos homens. Treva está relacionada com a noite e a luz com o dia.
Há outros elementos tais como, a luz, a árvore, uma serpente, um paraíso, um deus criador, um dilúvio, a quebra de amizade entre os deuses e os homens, o número sete, etc..
É inegável que os textos mitológicos do oriente próximo sugerem que os israelitas compartilhavam de alguma forma uma concepção semelhante à destes povos.
Partindo desta ideia alguns têm sugerido que a cosmologia hebraica, que veio posterior à destes povos é uma adaptação das antigas cosmologias do Egito, Mesopotâmia e Ugarith e dependente delas. Entretanto, o teólogo Bob Deffinbaug assevera: “A explicação mais aceitável é que as semelhanças são explicadas pelo fato de que todos os relatos similares da criação tentam explicar os mesmos fenômenos”[4]
É bem possível que o conhecimento mais antigo do relato da criação houvesse sido distorcido a tal ponto que perdesse sua originalidade e veracidade.
Quanto a isso Merril Unger afirma:
“Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.”[5]
A despeito de algumas similaridades encontradas entre as narrativas pagãs, o relato do livro de Gênesis possui material exclusivo e original – revelado ou compilado da tradição oral. A cosmogonia hebreia apresenta logo de frente um monoteísmo inigualável em todo o Oriente. A narrativa dos mitos cosmogónicos dos povos do Antigo Oriente apresentava-se em forma de poesia, o que contrasta com o gênero literário do livro do Gênesis que possui um caráter eminentemente histórico e teológico.
Outra diferença entre o relato de Gênesis e a narrativa das outras cosmogonias está em alguns verbos. A Bíblia descreve Deus usando o verbo criar, “bara” em hebraico e que significa “criar do nada”, sem matéria preexistente. As narrativas míticas dos povos vizinhos de Israel, por outro lado, sempre mostram que a matéria é preexistente e infinita, portanto, anterior até mesmo aos deuses.

O relato Bíblico

Observando o gênero literário do relato da criação no texto bíblico, constata-se uma escrita na forma de narrativa. Além da questão do gênero literário, a gramática em si, o uso de determinadas expressões e verbos, separa o texto dos hebreus dos mitos. O escritor sagrado faz uso do verbo ar’B’ (b¹r¹°) para expressar a maneira como o Cosmos veio à existir e para revelar a identidade do seu autor, visto que o sujeito deste verbo sempre é Deus. Ele é acertadamente traduzido por “criar”, e quando ele se encontra no grau Qal, sempre está associado a algum tipo de atividade divina. Van Gronigen sugere que este verbo indica uma nova criação, ou o início absoluto de algo, como a criação do Cosmos. Significa criação divina, um ato de Deus em criar alguma coisa, não necessariamente, e nem exclusivamente, criar “do nada”,[3] mas o ato de Deus criar, seja do nada, seja utilizando-se de algo já existente. Por ser um verbo télico, refere-se a um ato concluído, indicando assim, que Gn 1.1 não apresenta Deus criando, mas apresenta-o como tendo criado, um processo acabado. Strong, embora admita que a criação como descrita em Gn 1 foi sem o uso de matéria preexistente, conclui que o uso desta palavra não denota especificamente criação sem o uso de matéria preexistente. Algumas passagens, como a criação do homem onde o mesmo verbo é utilizado descreve a criação à partir de matéria que já existia. O homem foi criado do “pó da terra.” Segundo ele, o contexto de Gn 1 indica o início absoluto, o chamado à existência, e acrescenta: “se ar’B’ (b¹r¹°) não significa criação absoluta, não há na língua hebraica nenhuma palavra que expresse essa idéia” (STRONG, 2003, p. 554).
Quanto à criação inicial em Gn 1.1, o verbo refere-se a um começo absoluto, o que significa que a criação foi chamada a existir “do nada.” Não houve material eterno ou pré-existente de que Deus se utilizou. A expressão “do nada”, comumente utilizada para descrever a criação, não deve levar o leitor a achar que o nada é algum tipo de substância eterna; o termo é empregado simplesmente para descrever criação sem a utilização de nenhum tipo de material.
Agora somos levados a conhecer a cosmogonia divina. Aquilo que nenhum olho humano pôde contemplar em seu início absoluto, foi revelado graciosamente por Deus à humanidade. O homem passa a conhecer a criação e a entender o “que”, o “porquê” e o “como” as coisas surgiram, e “quem” as fez. Nas próximas páginas, nosso foco se dará em analisar a origem do Cosmos, seguindo bem de perto alguns aspectos do relato da criação, como está em Gênesis. Estes serão contrastados com alguns mitos do antigo Oriente Próximo.

Corrupção do relato original

Não apenas o relato bíblico da criação tem a sua versão paganizada, mas a história do dilúvio bíblico também concorre com uma outra versão, o Épico de Gilgamesh. E não apenas esse, mas em todos os continentes do globo terrestre, nas tribos e povos mais antigos, registra-se a inundação da terra por meio de uma enchente avassaladora, onde, na maioria das vezes, apenas um homem e sua família sobreviveram. Tantas similaridades com as histórias bíblicas, a meu ver, não apontam uma simples dependência dos textos bíblicos de fontes pagãs, pelo contrário, parecem indicar a crença universal de que tais mitos procuram olhar para um evento (ou vários eventos) que realmente aconteceu. Houve uma criação, com um período inicialmente caótico. Um relato é verdadeiro, os demais foram corrompidos com o passar dos séculos. Assim, os mitos mesopotâmicos, do Antigo Oriente, Mediterrâneos (e de outras partes) são corrupções do relato original (oral), que séculos mais tarde foi escrito por Moisés (o texto hebraico, ou o livro de Gênesis do VT, que conhecemos).

Fontes antigas

A transmissão de tais relatos remonta um período de tempo bem anterior à escrita. Não seria correto julgar o relato bíblico como sendo uma cópia mítica adaptada, apenas baseado no fato de que seu texto é mais recente do que muitos textos da mesopotâmia e, sendo assim, obviamente o texto de Moisés seria um relato que foi adaptado à crença hebraica. Na verdade, dois aspectos devem ser observados aqui. Primeiro: Quanto ao texto hebraico, não sabemos se tudo foi miraculosamente revelado por Deus a Moisés, ou se parte do relato já existia em forma escrita, datando de um tempo bem anterior ao de Moisés. Em Gênesis 5.1, Moisés escreveu: “este é o livro da genealogia de Adão”. O texto indica que uma fonte, um livro ou documento contendo toda a genealogia de Adão já existia na forma escrita, preservada pelos hebreus.

O parentesco lingüístico

O outro aspecto é a língua. O idioma hebraico faz parte do ramo de idiomas semíticos que tiveram sua origem no Crescente Fértil. O hebraico é do ramo ‘Semítico do Noroeste’. Outros dois ramos lingüísticos com parentesco são o Semítico Oriental e o Semítico do Sul. Esta raiz lingüística envolve praticamente todas as nações daquela região: Assíria, Acade e Babilônia com o idioma chamado acadiano; O alfabeto ugarítico na região sírio-fenícia, daí vem o aramaico o cananeu e posteriormente o hebraico; do ramo Semítico do Sul vem todo o leque de idiomas e dialetos do mundo árabe. Todas estas línguas tiveram uma raiz comum, derivando de um mesmo idioma primitivo que se desenvolveu posteriormente nas várias línguas da região. Hoje, uma das teorias mais defendidas na filologia, é a de que todos os idiomas do planeta derivam de uma língua comum, de um idioma primitivo. Daí, obviamente que a semelhança linguística entre o hebraico e o acadiano, por exemplo, são sinais de que elas são derivadas da mesma fonte linguística. Não é estranho que a genealogia de Adão, por exemplo, pudesse ter sido preservada em um hebraico primitivo, ou em um outro idioma mais antigo.

A tradição oral

Os próprios mitos remontam o período anterior à escrita, seguindo a datação tradicional do aparecimento da escrita. Os textos cosmogônicos mais antigos são os sumérios, e como bem frisou Mircea Eliade, “esse documento [escritos] refletem, certamente crenças religiosas mais arcaicas”. Tais crenças “mais arcaicas” que deram forma aos mitos escritos, estavam vivas e eram transmitidas oralmente à geração seguinte. O universo das transmissões orais, a história oral, seria o berço de todos os relatos antigos: os mitológicos, e o relato bíblico (não mitológico). Daí, não se pode afirmar, por exemplo, que o mito sumério, ou o Enuma Elish sejam uma história mais antiga do que o relato da criação em Gênesis, o que se pode afirmar é que tanto o mito sumério, como o Enuma Elish foram primeiramente escritos, colocado em tabletes de argila. Moisés escreveu posteriormente o relato bíblico da criação. Mais a antiguidade de um relato não deve ser medida a partir de sua fonte material, pois a oralidade do relato supera o tempo da sua escrita. Assim sendo, tanto o relato de Gênesis, como o Enuma Elishh, por exemplo, já existia antes mesmo de serem colocados em forma escrita. Isso sugere que a narrativa da criação que Moisés escreveu pode perfeitamente ser mais antiga do que as variadas mitologias cosmogônicas; pode ser a base, inclusive, das mitologias, sendo nesse caso, o inverso do que a crítica bíblica sugere.

Comparação equivocada

Na narrativa dos hebreus, o primeiro ato criativo de Deus foi trazer à existência o espaço e a matéria. Espaço como o lugar que seria preenchido por uma infinidade de estrelas e galáxias, e a matéria com a qual o nosso planeta foi organizado. Isso indica que havia um estado de desorganização inicial. Um estado bruto, uma matéria não lapidada: “A terra, porém, estava sem forma e vazia. havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2). Uma similaridade com os mitos pagãos pode ser observada no uso de palavras e expressões do tipo: sem forma e vazia; trevas; abismo; águas. Os mitos, como vimos antes, introduzem suas cosmogonias com a existência de um grande mar, denominado Caos. Um grande oceano está presente e existe um certo sinal de desorganização, marcado pela guerra entre os deuses e monstros. Portanto, o verso dois de Gênesis é o que apresenta mais similaridades com os mitos pagãos em todo o relato criativo dos hebreus.
Alguns termos são importantes: o hebraico Whboêw” ‘Whto’ (töºhû wäböºhû) “sem forma e vazia” parece uma forma poética, composta com a finalidade de rimar aos ouvidos do povo hebreu. Caos é o significado aqui, mas não um Caos personificado, representativo, como nos mitos pagãos. O termo Wht (töºhû) é traduzido por caos. A idéia bíblica é de desordem da matéria, confusão, alguma coisa informe e sem simetria. O termo seguinte, que classifica a terra como estando Whb (böºhû) “vazia” expressa a mesma idéia de caos. Seu sentido é de algo vazio e desolado. A construção gramatical, como aparece em Gênesis 1.2, está presente em mais dois livros do Antigo Testamento; primeiro em Jeremias 4.23; e no profeta Isaías 34.11, com uma construção gramatical levemente alterada. Todas as passagens transmitem a idéia de estado caótico e de extrema desolação. Parece que a rima das duas palavras hebraicas é usada para enfatizar o estado de caos.
Outro termo que lembra a mitologia, é a palavra ~AhT. (Tühôm) “oceano, águas profundas, abismo”. Na literatura pagã a deusa Tiamat equivale às águas do caos personificada. A discussão se dá pela semelhança etimológica da palavra no acadiano (escrita da literatura pagã) com o hebraico. O termo hebraico não é derivado diretamente do acadiano, mas é similar, e parece ser a palavra que representa o mesmo sentido do termo acadiano: oceano, mar, águas. A grande diferença é que no relato bíblico o grande oceano é exatamente e literalmente um grande oceano, e nada além disso. No relato pagão, o oceano é divinizado em Tiamat, uma deusa maligna.
A matéria criada para a formação da terra, até então, encontrava-se coberta pelas águas. O relato bíblico diz que “o Espírito de Deus pairava por sobre a face das águas.” Aqui, relaciona-se o Espírito de Deus e as águas. Para encerrarmos a discussão das similaridades entre os mitos pagãos da criação e o relato bíblico, tecerei mais um comentário a esse respeito, pois alguns vêem aqui, novamente, a sombra da história de Tiamat. Na mitologia, ela, personificada pelas águas do caos, luta contra os deuses e é derrotada por eles. Sendo assim, alguns estudiosos procuram equiparar o Espírito Santo pairando sobre as águas como uma espécie de luta entre o Espírito e as águas caóticas da criação de Deus. Não existe a menor indicação de luta do Espírito com as águas, portanto, não existe similaridade aqui. Nenhuma idéia do texto bíblico, com exceção da presença da água do oceano e do Espírito Santo, que podem ser relacionados com o Caos e Tiamat, segue o texto pagão. Não houve guerra e nem esforço de Deus na criação. Apenas o progresso da criação em seus estágios, conforme acompanhamos em cada ato criativo e organizador em cada dia, e no avanço do estabelecimento do perfeito cosmos de Deus dia após dia.
A associação e o uso de termos que representam eventos ou criaturas das mitologias do antigo Oriente Próximo (se esse for o caso em Gênesis 1) não pode ser interpretado como prova de crença nos relatos pagãos ou cópia destes mesmos relatos por parte do escritor bíblico. Crenças tão comuns no Antigo Oriente e na Mesopotâmia, evidentemente poderiam ser mencionadas de acordo com os objetivos estilísticos e didáticos do autor. Muito mais importante é a hipótese que já foi mencionada anteriormente, que os relatos mitológicos são deturpações do relato original de Gênesis. Os mitos olharam para a Palavra de Deus e não o contrário. Gênesis é a fonte e não a cópia! Quando nos referimos em Gênesis como sendo a fonte dos mitos, não pensamos no texto mosaico como base para os mitos, pois as mitologias são mais antigas do que o texto de Gênesis que Moisés escreveu. Referimos-nos à tradição oral do relato da criação, desde Adão, passando pelos primeiros patriarcas ante-diluvianos, até Noé e sua família, e o mundo depois dele.[6] Se o relato foi preservado oralmente por meio de uma linhagem fiel mantida por Deus na terra, esse relato pode ter sofrido as mais variadas corrupções e adaptações por meio daqueles que, estando fora da comunidade fiel, ouviram tais relatos e os passaram adiante. Com o passar dos anos o relato foi deturpado e essa corrupção teria dado origem às várias cosmogonias do antigo Oriente Próximo, da Mesopotâmia e de muitas outras regiões.

Conclusão

Há uma nova tendência entre estudiosos do tema de que mito, não necessariamente quer dizer mentira ou falsidade, mas uma forma diferente do homem antigo descrever a realidade a partir de fatos verdadeiros. Esta é a opinião que toma o mitólogo Mircea Eliade em seu livro “Mito e Realidade”, (São Paulo, Perspectiva, 2004).
Todavia, os relatos cosmogônicos presentes nos textos egípcios, sumerianos, babilônicos, indianos, africanos e outros atestam o contrário. Apesar de algumas semelhanças superficiais, os relatos de Gênesis contrastam fortemente com os relatos de outros povos. Tudo leva a crer que um relato original foi deturpado quando espalhado pelas muitas culturas e povos, sobrando apenas um “esqueleto” que poderia lembrar o que a cosmogonia hebreia relata em sua plenitude.
A hipótese da originalidade do texto bíblico e da corrupção da tradição oral que carregava o relato cosmogônico original, que foi deturpado e originou as mitologias do Antigo Oriente Próximo, é perfeitamente possível, portanto, válida, não podendo ser meramente descartada por conta de pressupostos ou de convenções sem comprovação científica. Ela deve ser verificada e os estudos quanto a essa questão devem ser aprofundados. A filologia, a arqueologia, a antropologia, a teologia na esfera da bibliologia e outras ciências devem intensificar essa questão nos próximos anos.

Bibliografia:

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