A Reforma Protestante – I

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Lutero pregando as 95 teses

ISABEL, A CATÓLICA

Mesmo que seja costume começar os livros sobre a Reforma tratando da Alemanha e da experiência e teologia de Lutero, o fato é que o pano de fundo político e eclesiástico da época pode ser mais bem entendido tomando outros pontos de partida. O que escolhemos aqui, que poderá parecer estranho ao leitor, tem certas vantagens. A primeira delas é que mostra a continuidade entre os desejos reformadores que vimos repetidamente na Parte 5 e os acontecimentos do século XVI. Lutero não apareceu no meio do nada, mas foi o resultado dos “sonhos frustrados” de gerações anteriores. Todos conhecem a direção que seu protesto tomou, devido em parte às condições políticas que se relacionavam estreitamente com a hegemonia espanhola. A segunda vantagem do nosso ponto de partida é que nos ajuda a traçar o marco político dentro do qual ocorreram acontecimentos que freqüentemente são descritos num plano puramente teológico. Catarina de Aragão, a primeira esposa a quem Henrique VIII da Inglaterra repudiou, era filha de Isabel.
Carlos V, o imperador a quem Lutero enfrentou em Worms, era neto da grande rainha espanhola e, portanto, sobrinho de Catarina. Filipe II, o filho de Carlos V, bisneto de Isabel, casou-se com sua prima de segundo grau, Maria Tudor, rainha da Inglaterra e neta de Isabel. Tudo isso, apresentado tão rapidamente, pode parecer complicado, mas será explicado adiante no decurso desta história. Mencionamos aqui simplesmente a fim de demonstrar a importância de Isabel e sua descendência dentro do processo político e religioso do século XVI. Por último, em relação à Espanha, esse ponto de partida ajuda a corrigir várias falsas impressões que se possa ter recebido de uma história escrita principalmente por uma perspectiva alemã ou anglo-saxônica. Durante a época da Reforma, a Espanha era centro de atividade intelectual e reformadora. Embora seja certo que a Inquisição tenha sido freqüentemente uma força opressora, não é menos certo que, em muitos outros países, tanto católicos como protestantes, havia outras forças de mesma índole. Ademais, muito antes do protesto de Lutero, os desejos reformadores se haviam instalado em boa parte da Espanha, precisamente graças à obra de Isabel e seus colaboradores. Se não nos esquecermos do que estava acontecendo na Espanha nos tempos de Isabel e nos primeiros anos de reinado de Carlos V, então a reforma católica, que muitas vezes recebe o nome de “Contrarreforma”, será conseqüentemente anterior à protestante. Tampouco devemos esquecer que essa “era dos reformadores”, que agora estudamos, também foi a mesma “era dos conquistadores”, à qual dedicaremos a Parte 7. Para a história escrita com base numa perspectiva alemã ou anglo-saxônica, a conquista da América pelos povos ibéricos tem pouca importância c parece um apêndice aos acontecimentos supostamente mais importantes que estavam ocorrendo na Alemanha, Suíça. Inglaterra e Escócia. Porém, o fato é que essa conquista foi de tão grande importância para a história do cristianismo como foi a Reforma protestante. Ambos os acontecimentos ocorreram ao mesmo tempo. Para acentuar essa concordância cronológica entre a “era dos reformadores” e a “era dos conquistadores”, decidimos começar ambas as partes com a mesma personagem, freqüentemente esquecida na história eclesiástica, em que se encontram tanto as raízes da Reforma como as da Conquista: Isabel de Castela, “a Católica”.
Ao tratar de Isabel nesta Parte, isto quer dizer que dirigiremos nossa atenção quase que exclusivamente para a sua luta reformadora, deixando para a Parte 7 tudo o que se refere à sua marcha ao trono, à conquista de Granada, ao descobrimento da América e às primeiras medidas colonizadoras e evangelizadoras.

A REFORMA DO CLERO

Isabel e Fernando

Quando Isabel e Fernando herdaram a coroa de Castela, devido à morte do meio-irmão de Isabel, Henrique IV, a igreja espanhola se encontrava em grande necessidade de reforma. Durante os anos de incertezas políticas que precederam a morte de Henrique IV, o alto clero dedicara-se às práticas belicosas que eram características de muitos dos prelados do fim da Idade Média. Nisto a Espanha não se diferenciava do restante da Europa, pois seus bispos com freqüência se tornavam mais guerreiros que pastores e se envolviam por completo nas intrigas políticas da época, não para o bem dos seus rebanhos, mas por seus próprios interesses políticos e econômicos. Exemplo disso foi o arcebispo de Toledo, dom Alonso Carrillo de Albomoz, que, foi um dos principais arquitetos da ascensão política de Isabel e do seu casamento com Fernando. O baixo clero, ainda que distante do poder e dos luxos dos prelados, não estava em melhores condições de servir ao povo. Os sacerdotes, em sua maioria, eram ignorantes e incapazes de responder às mais simples perguntas religiosas por parte dos paroquianos, e muitos deles não sabiam nada mais que recitar a missa de memória, sem sequer entender o que estavam dizendo. Além do mais, visto que o alto clero recolhia a maior parte das entradas na igreja, os sacerdotes se viam envoltos em pobreza humilhante, e freqüentemente descuidavam dos seus trabalhos pastorais. Nos conventos e mosteiros, a situação não era muito melhor. Conquanto em alguns a regra monástica continuasse a ser cumprida, em outros se praticava a vida luxuosa. Havia casas religiosas governadas não segundo as regras, mas segundo os desejos dos monges e monjas da alta nobreza. Em muitos casos, descuidava-se da oração, supostamente a ocupação principal dos religiosos. A tudo isso, adicione-se o pouco caso que se fazia ao celibato. Os filhos bastardos dos bispos se moviam no meio da nobreza, reclamando abertamente o sangue de que eram herdeiros. Até o digníssimo dom Pedro González de Mendoza, que sucedeu a dom Alonso Carrillo como arcebispo de Toledo, tinha pelo menos dois filhos bastardos, aos quais posteriormente, com base no arrependimento do arcebispo, Isabel declarou como legítimos. Se isso ocorria no alto clero, a situação não era melhor entre os sacerdotes locais, muitos dos quais viviam publicamente com suas concubinas e seus filhos. Visto que esse concubinato não tinha a estabilidade do casamento, eram muitos os sacerdotes que tinham filhos de várias mulheres. Isabel e Fernando subiram juntamente ao trono de Castela, ainda que, segundo o estabelecido antes do casamento, Fernando não pudesse intervir nos assuntos internos de Castela contra o desejo da rainha, que era a herdeira do trono. A atitude dos dois cônjuges para com a vida eclesiástica e religiosa era muito distinta. Fernando tivera amplos contatos com a Itália, e a atitude renascentista de quem via na igreja um instrumento para seus fins políticos se apegara a ele. Isabel, por sua vez, era uma mulher devota e seguia rigorosamente as horas de oração. Para ela, os costumes licenciosos e belicosos do clero eram um escândalo. Para Fernando, a preocupação era o excessivo poder dos bispos, convertidos em grandes senhores feudais. Em conseqüência, a reforma seguia adiante quando os interesses políticos de Fernando coincidiam com os propósitos reformadores de Isabel. Quando não coincidiam, Isabel fazia valer sua vontade em Castela, e Fernando, em Aragão. Com a finalidade de reformar o alto clero, os reis católicos obtiveram de Roma o direito de nomeação. Para Fernando, tratava-se de uma medida necessária, do ponto de vista político, pois a coroa não podia ser forte enquanto não contasse com o apoio e a lealdade dos prelados. Isabel via essa realidade, e concordava com Fernando, pois sempre foi mulher sagaz em assuntos de política. Entretanto, estava convencida da necessidade de reformar a igreja em seus domínios, e o único modo de fazê-lo era tendo à sua disposição a nomeação daqueles que deveriam ocupar os altos cargos eclesiásticos. Prova dessa atitude divergente entre os soberanos é o fato de que, embora em Castela Isabel se esforçasse para encontrar pessoas idôneas que ocupassem as vagas, em Aragão Fernando nomeou dom Afonso, seu filho bastardo de seis anos de idade, como arcebispo de Saragoça. De todas as nomeações que a rainha pôde fazer graças a suas gestões em Roma, nenhuma teve conseqüências tão notáveis como a de Francisco Jiménez de Cisneros, a quem nomeou arcebispo de Toledo. Cisneros era frade franciscano em quem se combinavam a pobreza e a austeridade franciscanas com o humanismo crasmiano. Antes de ser arcebispo, dera amplas mostras tanto de seu temperamento como de sua erudição. Desde jovem, tinha se chocado com os interesses do arcebispo Alonso Carrillo de Albomoz, e passou dez anos preso, sem ceder. Depois se dedicou a estudar hebraico e aramaico, e foi visitante da diocese de Siguenza, cujo bispo se ocupava com seu rebanho mais do que era o costume naquela época. Decidiu então se retirar a um mosteiro franciscano, onde abandonou seu nome anterior de Gonçalo e tomou o de Francisco, pelo qual foi conhecido posteriormente. Quando dom Pedro González de Mendonça sucedeu o arcebispo Carrillo, recomendou-o à rainha, que já tomara como seu confessor o douto e devoto frei Francisco. Este concordou, com a condição que lhe permitissem continuar vivendo num mosteiro e guardar estritamente seu voto de pobreza. Assim, logo se converteu num dos conselheiros da rainha, e quando ficou vaga a sede de Toledo, pela morte do cardeal Mendonça, a rainha decidiu que frei Francisco era a pessoa chamada para ocupar esse cargo. A isso se opunha o rei, que queria nomear seu filho dom Afonso, e a família do falecido arcebispo, que esperava que se nomeasse um dentre eles. Entretanto, a rainha se mostrou firme na sua decisão e, sem que Jiménez de Cisneros o soubesse, ela enviou seu nome a Roma, de onde obteve de Alexandre VI sua nomeação como arcebispo de Toledo e primeiro prelado da igreja espanhola. Foi assim, de modo irônico, que aconteceu por intermédio do papa Alexandre VI, de tristíssima memória e pior reputação, a doação das bulas de nomeação de Cisneros, o grande reformador da igreja espanhola. Quando o frei recebeu das mãos da rainha a nomeação pontificial, prontamente se negou a aceitá-la, sendo necessária outra bula de Alexandre para obrigá-lo a ceder. Isabel e frei Francisco colaboraram na reforma dos conventos. A rainha se ocupava prioritariamente das casas das religiosas, e o arcebispo, dos monges e frades. Seus métodos eram distintos, pois embora Cisneros fizesse uso direto de sua autoridade, ordenando que se tomassem medidas reformadoras, a rainha utilizava procedimentos menos diretos. Quando decidia visitar um convento, levava consigo sua roca ou algum outro trabalho manual, ao qual se dedicava em companhia das freiras. Assim, em suave conversação, inteirava-se do que estava sucedendo no local, e, caso encontrasse algo fora do lugar, dirigia às freiras palavras de exortação. Insistia particularmente que se guardasse a mais estrita clausura. De modo geral, isso bastava. Porém, quando chegavam notícias de que algum convento não melhorara sua disciplina apesar de suas exortações, ela usava de sua autoridade real. Nesses casos, suas penas eram severas. Os métodos de Cisneros logo lhe criaram inimigos, e tanto os cônegos de Toledo como alguns dentre os franciscanos enviaram protestos a Roma. Em resposta a esses protestos, Alexandre VI ordenou que se detivessem as medidas reformadoras, até que pudesse investigar o assunto. Contudo, mais uma vez, a rainha interveio, obtendo de Roma não só a permissão para continuar o trabalho reformador, como também a autoridade necessária para o fazer de modo mais eficiente.

MEDIDAS REPRESSIVAS

Inquisição Espanhola. 1478 – 1834

Havia a impressão de que o governo dos reis católicos foi tal que nele se permitiu a liberdade de opiniões e de culto. Porém, foi exatamente o contrário. As mesmas pessoas que defendiam o estudo da Bíblia e das letras clássicas estavam convencidas da necessidade de que não houvesse na Espanha mais de uma religião, e que esta fosse perfeitamente ortodoxa. Tanto Isabel como Cisneros criam que a unidade do país e a vontade de Deus exigiam que se arrancasse todo o vestígio de judaísmo, maometanismo e heresias. Foi esse o propósito da Inquisição espanhola, que data de 1478. Antes de passar a tratar dessa forma particular de Inquisição, devemos recordar ao leitor que essa instituição tinha velhas raízes na tradição medieval. O primeiro herege havia sido condenado à morte já no século IV. Depois, a tarefa inquisitorial caiu nas mãos das autoridades locais. No século XIII, como parte do trabalho centralizador de Inocêncio III, colocou-se sob a supervisão pontifícia. Assim se praticou em toda a Europa por vários séculos, ainda que não sempre com o mesmo rigor. A principal inovação da Inquisição espanhola esteve em colocá-la não sob a supervisão papal, mas sob as ordens da coroa. Em 1478, o papa Sisto IV aceitou uma petição nesse sentido por parte dos reis católicos. Os motivos pelos quais os soberanos fizeram essa petição não estão inteiramente claros. De uma parte, o papado passava por tempos difíceis e não resta dúvida de que Isabel estava convencida de que a reforma e a purificação da igreja espanhola teriam que se originar da coroa e não do papado. De outro lado, a sujeição da Inquisição ao poder real era um instrumento valioso nas mãos dos monarcas, empenhados no grande projeto de fortalecer esse poder. Em todo caso, quando chegou a bula papal, Isabel demorou algum tempo em aplicá-la. Primeiro desenvolveu uma vasta campanha de pregação contra as heresias, ao pensar com esperança que muitos abandonassem seus erros voluntariamente. Quando por fim se começou a aplicar o decreto papal, primeiramente só em Sevilha, houve fortes protestos que chegaram a Roma. Em 1482, quando as relações entre o papa e a Espanha eram tensas devido aos vários conflitos políticos na Itália, Sisto IV cancelou sua bula anterior, cedendo às queixas que tinham chegado da Espanha. Porém, no ano seguinte, após uma série de gestões nas quais Rodrigo Bórgia, o futuro Alexandre VI, esteve envolvido, a Inquisição espanhola foi restaurada. Foi então que o dominicano Tomás de Torquemada, cuja intolerância e crueldade se tomaram famosas, foi nomeado Inquisidor Geral da Coroa de Castela. Em Aragão, o reino que correspondia como herança a Fernando, o curso da Inquisição foi paralelo ao que ocorreu em Castela. Nos últimos anos antes do advento de Fernando ao trono, a atividade inquisitorial fora menor em Castela do que cm Aragão; portanto, o país estava mais acostumado a tais processos. Porém, ali também surgiu oposição, particularmente por parte daqueles que criam que a Inquisição real era uma usurpação da autoridade eclesiástica. Do mesmo modo que em Castela, houve um breve período em que, pelas mesmas razões políticas, o papa retirou da coroa o poder de dirigir a Inquisição, que antes lhe outorgara. Mais tarde, porém, Roma aceitou as petições espanholas, e o Santo Ofício ficou sob a orientação da coroa. Poucos meses depois de ser nomeado Inquisidor Geral de Castela, Torquemada recebeu autoridade semelhante para o reino de Aragão.
Muito se tem discutido sobre a Inquisição espanhola. De modo geral, os autores católicos conservadores tratam de provar que as injustiças cometidas não foram tão grandes como se tem dito e que o Santo Ofício era uma instituição necessária. Contrários a eles, os protestantes descrevem-na como uma tirania insuportável e uma força sombria. A verdade é que ambas as interpretações são falsas. Os crimes da Inquisição não podem ser encobertos dizendo-se simplesmente que não foram tantos nem tão graves, ou argumentando que era uma instituição necessária para a unidade religiosa do país. Porém, da mesma maneira não há provas de que a Inquisição espanhola, especialmente em suas primeiras décadas, foi uma instituição impopular, nem que se comprazia em perseguir os estudiosos. Houve muitos casos em que os letrados empregaram os meios do Santo Ofício para silenciar místicos e visionários que representavam as classes mais baixas da sociedade (e em particular as mulheres que diziam ter visões). Embora alguns sábios, como frei Luís de Leão, tenham passado alguns anos nos cárceres inquisitoriais, a maioria dos entendidos da época via na Inquisição um instrumento para a defesa da verdade. Também há fortes indícios de que, pelo menos a princípio, a Inquisição foi uma instituição que desfrutou do favor do povo. As tensões entre os “cristãos velhos” e os convertidos do judaísmo eram enormes. Por boa parte da Idade Média, a Espanha fora mais tolerante para com os judeus do que o restante da Europa; na época que estamos estudando, e já desde um século antes, as condições começaram a mudar. O crescente sentimento nacionalista espanhol, unido como estava à fé católica e à ideia da Reconquista, fomentava a intolerância contra judeus e mouros. A essa intolerância se dava um verniz religioso que parecia justificá-la. Quando eles se convertiam — por motivos de convicção ou cedendo à enorme pressão que se aplicava aos judeus e aos mouros — , perdia-se essa desculpa religiosa para odiá-los, e aí aparecia uma nova razão para a discriminação: dizia-se que os convertidos não eram verdadeiros e que secretamente continuavam praticando os ritos de suas velhas religiões furtando-se em particular da fé cristã. Logo, muitos dos conversos, que tinham crido que as águas batismais os libertariam do estigma a que estavam unidos à sua velha religião, viam-se agora acusados de hereges e, portanto, sujeitos aos rigores da Inquisição. Os “cristãos velhos” consentiam nessa prática, pois assim podiam sentir-se superiores aos conversos. Visto que seu propósito era extirpar a heresia, e para ser herege era necessário ser cristão, a Inquisição não tinha jurisdição sobre judeus ou muçulmanos; somente sobre os convertidos. Contra estes, aplicou-se enorme rigor. Todavia, a Inquisição medieval permitiu que, em casos excepcionais, não se divulgassem os nomes dos acusadores de um réu. Na Inquisição espanhola, essa regra de exceção se tomou prática normal, pois se dizia que o poder dos convertidos era tal que, caso soubessem quem os havia acusado, os demais tomariam atitudes de represália; assim, temia-se pela vida das testemunhas. O resultado foi privar o acusado de um dos elementos mais necessários para uma defesa eficaz. Além disso, aplicava-se a tortura com grande freqüência; desse modo, arrancavam-se tanto confissões como novas acusações contra outras pessoas. Freqüentemente os processos demoravam vários anos, durante os quais eram cada vez mais os implicados. Se o acusado era absolvido — caso raro —, tinha passado boa parte de sua vida encerrado nos cárceres inquisitoriais, não havendo maneira alguma de estabelecer recursos contra seus falsos acusadores, pois não ficara sabendo quem eram eles. Por mais razões históricas que se apresentem, não é possível justificar tudo isso com base na fé cristã. Também se tem discutido muito sobre os motivos econômicos envolvidos na Inquisição espanhola. Nela se aplicam os princípios medievais, segundo os quais os bens de todo condenado à morte eram confiscados. A princípio, tanto esses bens como as diversas multas que se impunham dedicavam-se às obras ­religiosas, de modo geral nas paróquias dos condenados. Porém, isso se tomou algo abusivo e os soberanos começaram a fiscalizar mais de perto os inquisidores, fazendo com que os fundos arrecadados fossem parar no tesouro real. Não existe modo de saber até que ponto essas medidas se devem à cobiça dos reis e até que ponto foram intenção sincera de evitar os abusos aos quais a Inquisição se prestou. O fato é que a coroa se beneficiou com os processos inquisitoriais. Outra fonte de renda eram as “reconciliações” que se faziam mediante o pagamento de uma soma. A mais notável foi a reconciliação geral dos anos de 1495 a 1497, que foi utilizada para cobrir as dívidas de guerra de Granada. Nesse caso em particular, não resta dúvida de que a intenção dos reis era tanto evitar os sofrimentos que os julgamentos e castigos acarretariam para os convertidos e suas famílias, como também se ressarcirem dos gastos com a guerra. Quaisquer que tenham sido os motivos dos monarcas, não se pode duvidar que a Inquisição se prestou aos maus desejos e à cobiça desmedida. Pouco depois da morte de Isabel, o Santo Ofício caiu em descrédito por essas razões, e Fernando teve que intervir no assunto, nomeando a Francisco Jiménez de Cisneros como Inquisidor Geral. Ainda que o franciscano não tenha sido tão terrível como Torquemada, deve-se notar que o inspirador da Poliglota Complutense e da Universidade de Alcalá foi também um grande inquisidor. Nele temos exemplo do que seria a forma característica da reforma católica, particularmente na Espanha, de combinar a erudição com a intolerância. Isabel não era mais tolerante que seu confessor, como pôde se ver na expulsão dos judeus. Todavia, ao ocupar-se dos conversos, a Inquisição permitia que os judeus que permanecessem firmes na fé de seus antepassados não ficassem debaixo de sua jurisdição. Mas eles eram acusados de manter contatos com os convertidos, com o propósito, segundo se dizia, de levá-los a judaizar-se. Ademais, comentava-se que os judeus tinham enormes riquezas e que aspiravam a apoderar-se do país. Tudo isso não eram mais que falsos rumores nascidos do preconceito, da ignorância e do temor. Em meados de 1490, ocorreu o episódio do “santo menino da guarda”. Um grupo de judeus e convertidos foi acusado de matar um menino de forma ritual, com o propósito de utilizar seu coração, além de empregar uma hóstia consagrada para malefícios contra os cristãos. No convento de São Domingos, em Ávila, Torquemada dirigiu a investigação. Os acusados foram declarados culpados e foram queimados em novembro de 1491 nas cercanias de Ávila. Até o dia de hoje, os historiadores não concordam entre si se realmente houve um menino sacrificado ou não. Porém, não se tem dúvida de que, se existiu uma conspiração, tratava-se de um pequeno grupo fanático, que não representava de modo algum a comunidade judaica. Em todo caso, o fato é que a inimizade entre os cristãos e os judeus se exacerbou. Em vários lugares, surgiram motins e matanças dos judeus. De acordo com suas obrigações legais, os reis defenderam os judeus — embora essa defesa não tenha sido firme, e os cristãos que cometeram esses atropelos contra os filhos de Israel não foram castigados. O que sucedia era, pelo menos em parte, que a rainha estava convencida da necessidade de buscar a unidade política e religiosa da Espanha. Essa unidade era uma exigência política e religiosa; política porque as circunstâncias a exigiam; religiosa, porque tal era, segundo Isabel, a vontade de Deus. O golpe decisivo contra os judeus chegou pouco depois da conquista de Granada. Uma vez destruído o último baluarte muçulmano da Península, pareceu aconselhável ocupar-se do “problema” dos judeus. Quase todos os documentos, tanto cristãos como judeus, dão a entender que Isabel foi, mais que Fernando, quem concebeu o projeto de expulsão. O decreto publicado em 31 de março de 1492 dava aos judeus quatro meses para abandonar todas as terras reais, tanto na Espanha como fora dela. Foi-lhes permitido vender suas propriedades, porém lhes era proibido tirar do país ouro, prata, armas e cavalos. Logo, o único meio que os filhos de Israel tinham para salvar algo dos seus bens eram as letras de câmbio, disponíveis principalmente através de banqueiros italianos. Os judeus foram aviltados entre esses banqueiros e entre os especuladores que se dedicaram a aproveitar as circunstâncias, mesmo que os reis tratassem de evitar os abusos. Ao que parece, os reis esperavam que muitos judeus decidissem aceitar o batismo em vez de abandonar o país, que era sua pátria e onde já viviam por várias gerações. Com essa finalidade, decretaram que quem aceitasse o batismo poderia permanecer no país, e assim enviaram pregadores que anunciavam não só a verdade da fé cristã, mas também as vantagens do batismo. Umas poucas famílias ricas se batizaram e, por esse modo, conseguiram conservar seus bens e sua posição social. Esses poucos batismos foram feitos com grande solenidade, aparentemente, na esperança de induzir outros judeus a tomarem a mesma decisão. Porém, a maioria deles mostrou firmeza digna dos melhores episódios do Antigo Testamento. Melhor marchar para o exílio do que se inclinar diante do Deus dos cristãos e abandonar a fé dos seus antepassados. Os sofrimentos que aquele novo exílio trouxe ao povo de Israel foram indizíveis. Entre 50 mil e 200 mil judeus abandonaram sua terra natal e partiram para futuros incertos. Muitos foram saqueados ou assassinados por bandidos ou por aqueles que lhes ofereciam transporte. Dos que partiram para a costa norte da África, a maioria pereceu. Bom número se refugiou em Portugal, na esperança de que as circunstâncias mudassem na Espanha. Entretanto, quando o rei de Portugal quis se casar com uma das filhas de Isabel, ela exigiu que os judeus fossem expulsos daquele reino enviando-lhes assim a um novo exílio. A perda que tudo isso representou para a Espanha tem sido assinalada repetidamente pelos historiadores. Entre os judeus, estavam alguns dos elementos mais produtivos do país, cuja partida privou a nação de sua indústria e engenho. Além do mais, muitos deles eram banqueiros que repetidamente serviam a coroa em tempos difíceis. A partir de então, o tesouro espanhol teria que recorrer a empréstimos italianos ou alemães, em prejuízo econômico da própria Espanha. A situação dos mouros era semelhante à dos judeus. Embora restassem terras muçulmanas na Península, a maioria dos governantes cristãos seguiu a política de permitir a seus súditos muçulmanos praticar livremente sua religião, pois de outro modo estariam incitando-os à rebelião e à traição. Mas a situação política mudou com a conquista do reino de Granada. Ainda que nas capitulações de Granada se estabelecia que os muçulmanos teriam liberdade para continuar praticando sua religião, lei e seus costumes, esse tratado não foi respeitado, pois não havia um estado muçulmano capaz de obrigar os reis cristãos a cumpri-lo.
De pronto, o arcebispo Cisneros e o restante do clero se dedicaram a forçar os mouros a se converterem. O zelo de Cisneros levou os muçulmanos à rebelião, que foi posteriormente banhada em sangue. Com o fim de evitar outras rebeliões semelhantes, os reis ordenaram que também os mouros de Castela, como antes os judeus, tinham de escolher entre o batismo e o exílio. Pouco depois, quando se viu que possivelmente o êxodo seria maciço, proibiram-lhes de emigrar, de maneira que se viram obrigados a receber o batismo. A esses mouros batizados foi dado o nome de “mouriscos”. Do ponto de vista da igreja e do governo espanhóis, eles foram sempre um problema por sua falta de assimilação. Em 1516, Cisneros, como regente do reino, tratou de obrigá-los a abandonar seus trajes e seus costumes. Tudo, porém, sem êxito. Embora tudo isso estivesse acontecendo em Castela, em Aragão havia muitos mouros que não receberam o batismo. Mesmo que Carlos V tivesse prometido respeitar seus costumes, o papa Clemente VII o livrou do seu juramento e o instou a forçar os mouros de Aragão a batizarem-se. A partir de então, seguiu-se política cada vez mais intolerante, primeiro para com os muçulmanos e depois para com os mouriscos, até que os últimos mouriscos foram expulsos no princípio do século XVII.
O relato acima ilustra a política religiosa de Isabel, que foi também a da Espanha por vários séculos. Ao mesmo tempo em que se buscava reformar a igreja mediante a regularização da vida do clero e do incentivo aos estudos teológicos, era-se extremamente intolerante para com tudo o que não se ajustasse à religião do Estado. Logo, Isabel foi a fundadora da reforma católica, que deu o primeiro passo na Espanha e, então, fora dela. Essa reforma levou o selo da grande rainha de Castela.
O nome de Isabel, a Católica, mescla-se com a história da Reforma do século XVI, não somente por ela ser a principal promotora da reforma católica espanhola, como também porque seus descendentes se viram envolvidos em muitos dos acontecimentos que temos de relatar. Os filhos de Fernando e Isabel foram cinco.
A filha mais velha, Isabel, casou-se primeiro com dom Alfonso de Portugal; com a morte deste, com Manuel I de Portugal. Deste segundo casamento teve um filho, o príncipe dom Miguel, cujo nascimento lhe custou a vida, e que também não viveu muito tempo. João, o presumido herdeiro dos tronos de Castela e Aragão, morreu pouco depois de casar-se, sem deixar descendência. Sua morte foi um duro golpe para Isabel, tanto pelo amor materno que sentia para com o jovem príncipe como pelas complicações que esse acontecimento poderia acarretar para a sucessão do trono. Visto que dois anos depois, em 1500, morreu dom Miguel de Portugal, Joana, a segunda filha dos reis católicos, tornou-se herdeira dos tronos de Castela e Aragão. Joana se casou com Filipe, o Belo, filho do imperador Maximiliano I, porém logo começou a dar os primeiros sinais de loucura. Filipe herdara de sua mãe os Países Baixos, e com a morte de Isabel reclamou para si a coroa de Castela, ainda que Fernando, seu sogro, se opusesse a isso. Mas Filipe morreu inesperadamente em 1506, e a partir daí a loucura de Joana se tomou inegável. Ela mandou embalsamar o corpo do falecido esposo e passeava com ele por Castela; depois mudou-se para Tordesilhas, onde continuou guardando o cadáver até que morreu, em 1555. Joana tivera de Filipe dois filhos e quatro filhas. O filho mais velho, Carlos, foi seu sucessor no trono de Castela, e depois, de Aragão. Visto que também foi imperador da Alemanha, é conhecido como Carlos V, ainda que na Espanha fosse o primeiro rei com esse nome. O outro filho, Fernando, sucedeu a Carlos como imperador, quando este abdicou. A filha mais velha de Joana e Filipe, Leonor, casou-se primeiro com Manuel I de Portugal (o mesmo que antes casara com Isabel, a tia de Leonor), e em seguida com Francisco 1 da França, que ocupará papel importante em vários capítulos desta história. As demais se casaram com os reis da Dinamarca, Hungria e de Portugal. A terceira filha dos reis católicos, Maria, foi a segunda esposa de dom Manuel I de Portugal (depois de sua irmã Isabel, e antes de sua sobrinha Leonor). Por último, a filha menor de Fernando e Isabel, Catarina de Aragão, mudou-se para a Inglaterra, onde contraiu matrimônio com o príncipe Artur, herdeiro da coroa. Ao morrer Artur, casou-se com o irmão dele, Henrique VIII. A anulação desse casamento ocasionou o rompimento entre a Inglaterra e Roma, segundo veremos mais adiante. A rainha Maria Tudor, a quem se tem dado o sobrenome de “a Sanguinária”, era filha de Catarina e Henrique, e, portanto, neta dos reis católicos. Em resumo, ainda que a história dos filhos dos reis católicos seja triste, as próximas gerações deixaram sua marca, não só na Europa como também na América, até o ponto em que é impossível narrar a história do século XVI sem se referir a eles.

continua….

Biografia:

JPSantos 2018

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